Sábado, Maio 19, 2012 

Viva Timor-Leste!

Viva Timor-Leste!

Sexta-feira, Maio 18, 2012 

Desabafo timorense

Dez anos depois da restauração da independência, o ambiente que se vive em Timor-Leste é de paz e de estabilidade. Há unanimidade na constatação desse facto. Mas há divergência quanto ao entendimento de que o balanço é completamente positivo. Não é. Não soubemos tirar partido do ambiente de paz em que temos vivido nestes últimos anos e fomo-nos deixando dormitar convictos da normalidade da letargia. Havendo paz, sendo esse um aspecto fundamental para o desenvolvimento do país, poderíamos ter avançado muito mais se, ao invés de desperdiçarmos o dinheiro que enche os cofres do Estado e num ápice desaparece sem que bem se perceba o seu destino, o tivéssemos aplicado no que desde a independência se consideram continuamente prioridades do Estado: a saúde, a educação, as vias de comunicação, o saneamento básico, a agricultura, a justiça, o poder local... Está quase tudo por fazer... Mas hoje não vou falar dos aspectos negativos que ensombram os dias da nossa independência. Não vou repetir que já era tempo de não haver crianças a trabalhar, vendendo fruta, crocodilos de madeira ou bandeirolas. Nem que não valia a pena escondermos as nossas mazelas por detrás de folhas de zinco, só porque temos visitantes ilustres... É que as mazelas não desaparecem por magia! Não somos mágicos. A nossa terra, o nosso rincão, o nosso pedaço de paraíso é que tem magia! E nós nem sempre sabemos lidar com essa magia porque somos pequenos e distraídos. Se não, já teríamos percebido que, sendo pouco mais de um milhão de timorenses, não seria nada difícil construir um Estado próspero e desenvolvido onde todos nos sentíssemos acarinhados! Contudo - apesar de tudo quanto sabemos ainda não ter sido feito pela nossa pequenez e distracção, pela nossa dormência ou mesmo pela nossa ignorância feita arrogância de quem julga tudo saber, a par da constatação de que ainda está tudo por fazer -, persiste a lógica constatação de que Timor-Leste só tem dez anos de vida como Estado independente, é um Estado pós-conflito e durante mais de duas décadas os timorenses apenas puderam preocupar-se em arranjar formas de sobrevivência em cada dia da sua vida. E isso explica tudo! E porque fomos determinados e vencemos uma luta desigual, porque estamos a aprender a construir o nosso Estado, porque somos um povo generoso que recebe de braços abertos todos quantos nos queiram bem, podendo mesmo parecer uma incongruência o desabafo de quem talvez exija demais de si próprio, persiste o nosso imenso orgulho em ser timorense pelo que não é demais daqui lançar um enorme grito: Viva Timor-Leste!

Terça-feira, Dezembro 27, 2011 

Feliz Ano de 2012!

No limiar de um novo ano, que é sempre tempo de esperança, sucedem-se os desejos de  saúde, felicidade, de paz. Aqui em Timor-Leste, acrescentamos-lhe ainda a segurança e a estabilidade, essenciais para o crescimento do nosso país, sendo ainda que factores como a paz, a estabilidade e a segurança não devem faltar  nas  eleições presidenciais e legislativas de 2012, ano em que vamos festejar o décimo aniversário do reconhecimento internacional da nossa independência! Só por isso devemos demonstrar a nossa lucidez e a nossa maturidade políticas!

Feliz Ano de 2012!

Sábado, Dezembro 24, 2011 

Natal Chique



Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.

Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.

Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.


Vitorino Nemésio

Quarta-feira, Dezembro 21, 2011 

Lucidez!



Em cada bairro da cidade –e assim é nas capitais de todos os distritos -  os jovens esmeram-se na decoração do presépio.
Nota-se um presença menor de estrangeiros, os  “expatriados” que foram saindo de férias. Agora, as  ruas enchem-se de timorenses e, na Colmera, o bairro comercial mais movimentado de Díli, as pessoas acotovelam-se para as compras de Natal.
Não sentimos a crise que desespera a Europa e, embora os bolsos do timorense não estejam abarrotados de dinheiro, sempre vai havendo algum dinheiro para esta época especial... Falo, claro, do timorense de classe média baixa, porque os outros, os da classe média-alta, alguns governantes e muitos empresários  ou já fizeram ou fazem as malas e zarpam para o estrangeiro!
No próximo ano, o de 2012, teremos eleições presidenciais e  legislativas.
No próximo ano, a ONU deixará Timor-Leste.
Já no fim deste ano – ontem, depois de algum tempo de acalmia, recomeçaram os incidentes entre os grupos de artes marciais de que resultaram duas mortes.
De qualquer forma, acredito que estamos preparados para viver em paz, com estabilidade e em segurança. Diz o título do STL que os partidos políticos –custa-me a crer... - estão por detrás do conflito entre os grupos de artes marciais. Avisa um deputado que não devemos deixarmo-nos levar por alarmismos. E eu desejo que não nos deixemos levar por provocações, manipulações e tentativas de desestabilização. Precisamos de manter a lucidez!


Domingo, Setembro 04, 2011 

A "generosidade" estrangeira em Timor-Leste

No belíssimo Palácio de Lahane cedido para o que pretendia ser a “gala” organizada pelo, creio, “Rotary Club” e patrocinada por um resort de Bali, estava a “fina flor” da classe de estrangeiros residentes em Timor-Leste; entre estes, representantes de várias e bem conhecidas empresas estrangeiras que “investem” no nosso país.

A festa de ontem à noite tinha como objectivo a angariação de fundos a favor de uma das regiões mais sofridas do país desde o tempo da ocupação indonésia, pelo que os organizadores entenderam leiloar alguns produtos, entre os quais peças de mobiliário em madeira fabricadas em Timor, viagens ao estrangeiro, uma caixa de charutos cubanos assinados por Raul Castro e um quadro da autoria de uma pintora timorense – a convite de quem me encontrava na festa - que o pintou especialmente para esse efeito a pedido dos organizadores do evento.
Cada entrada custava 100 USD e, de entre tanto estrangeiro, pontuavam uns 30 timorenses que não empresários. Alguns, pouquíssimos portugueses. Não vi representantes de empresas portuguesas ou timorenses. Conclui que a festa se destinava quase exclusivamente a estrangeiros, na sua maioria de língua inglesa. A noite era de língua inglesa!
Pensei eu que, perante tanta lantejoula, tanto fato comprido, um ou dois uniformes militares de gala, saia escocesa, tanto casaco escuro e tanto champanhe a condizer com a pretensa solenidade da gala, os ditos empresários ou representantes de grandes empresas que dizem investir em Timor-Leste bem como os altos funcionários internacionais fossem abrir os cordões à bolsa contribuindo, dessa forma, para algum bem-estar das populações sofridas de uma zona recôndita do distrito de Ainaro. Pensei mal. Porque, se alguns estrangeiros ainda entraram no despique das viagens ao estrangeiro, quanto às peças de mobiliário apenas o grupo de timorenses se aventurou a adquiri-las – claro, são eles que fazem cá, em Timor-Leste, a sua vida! – já a caixa de charutos teve de ficar nas mãos do embaraçadíssimo licitador. Quanto ao quadro - sobre o que nem a intervenção da mulher do Primeiro-Ministro a favor das gentes sofridas de Mauchiga valeu ou provocou alguma reacção dos empresários ou representantes de grandes empresas estrangeiras ou dos altos quadros internacionais presentes que se mantiveram em embaraçante silêncio -, acabou nas mãos de uma particular, igualmente estrangeira.
A somar à vergonha pela despudorada avareza dos ditos senhores que vêm investir em Timor-Leste e dos ditos quadros internacionais que também vêm trabalhar, dizem, pelo desenvolvimento deste país, senti particular revolta pela indiferença com que as excelências acompanhavam a licitação das duas peças finais que, tudo fazia crer, seriam bem vendidas indo assim servir para ajudar a minorar o sofrimento e a pobreza daquelas populações.
Fiquei a saber que, em festas do género anteriormente realizadas, os ditos senhores importantes apenas abrem os cordões à bolsa se estão presentes ou o Presidente da República ou o Primeiro-Ministro. Então, têm de dar um ar da sua fictícia generosidade, e não deixando transparecer o que de menos bom lhes vai na alma, não lhes sobra outra solução senão a de entrar no jogo destinado, repito, a ajudar as populações timorenses mais carenciadas! Ontem, não estava ninguém das autoridades timorenses pelo que eles, os estrangeiros que ganham muito bem - sim, eu sei que é seu direito! - ou que têm lucros das suas empresas sediadas em Timor-Leste – também é seu direito, eu sei! – entenderam por bem deixar bem explícito que o que ganham não é para ficar em Timor-Leste! É para ser transferido para os seus países de origem. Claro que o conseguem à conta, também e claramente, das condições de subdesenvolvimento económico de Timor-Leste e da falta de quadros técnicos timorenses...
Cumprida a parte do leilão, a animação voltou. E os senhores internacionais, do alto da sua importância e da sua displicência por estas coisas de povo pobre que não lhes dizem qualquer respeito, foram divertir-se dançando no salão nobre. E, se eu tinha dúvidas, fiquei com a certeza de que eles, os estrangeiros, apenas queriam divertir-se. Porque - devem ter pensado - caramba!, se pagaram 100 USD pela entrada tinham direito a isso!
Tão generosos que eles são!

Sábado, Julho 02, 2011 

Há dias, em Aileu, distrito situado nas montanhas, onde o clima é quase sempre de Primavera – nunca chegando ao calor e à humidade de Díli - e a paisagem quase nunca deixa de ser verde, a inauguração de uma estação de água suficiente para suprir as necessidades de Díli (onde vivem quase 200 000 almas e é quase um luxo a água canalizada que cai pingo a pingo ou, pura e simplesmente desaparece das torneiras dias e dias seguidos nos bairros de maior densidade populacional e mais pobres!), levou à capital daquele distrito altas personalidades do Governo, diplomatas, jornalistas e muita população.
Era meio-dia, hora dos Rai-nain, dos verdadeiros donos da terra sagrada de Timor, quando a alta individualidade do Estado iniciou o seu discurso de circunstância.
Eis senão quando das profundezas da terra surgiu uma jibóia de uns bons metros que se deixou estar estiraçada ao Sol, de cabeça bem levantada... Algum desconforto, algumas vozes cochichando - é o Rai-nain e veio ouvir... agradam-lhe a obra e o discurso... veio dar a sua autorização... – o próprio governante comentando que “ é a natureza”, e em jeito de distante altivez qual soberano perante os seus súbditos, “percebido” o discurso, a jibóia escancarou a boca, deitou a língua de fora – não consta que alguém tenha ouvido as suas palavras talvez por não serem seres de eleição ou talvez também porque não percebiam o seu linguajar... - e recomeçou ondulando, retirando-se em direcção à sua morada.
Todos a viram, o jornal até mostra fotografias da distinta visitante displicentemente estendida por detrás das individualidades, mas ninguém a perseguiu nem quis bem saber onde fica o reino da poderosa e impressionante criatura. Certo é que ela apareceu para marcar o seu lugar e deixar o aviso de que nada em Timor passa incólume ou é ignorado pelos verdadeiros donos da Terra, os Rai-nain, sejam eles árvore, cobra, lafaik, pássaro ou pedra... E nós, simples mortais, só cá estamos e só usufruímos do que a Terra nos proporciona porque eles o permitem...
Acho que compreendi melhor o sentido da relatividade e da efemeridade do Poder. Mais ainda, da Vida!